Ana, professora universitária em Fortaleza, usa o ChatGPT toda semana para preparar aulas, corrigir textos e pesquisar referências. Numa tarde, por descuido, colou num prompt o nome completo e o histórico de saúde de um aluno para pedir ajuda com um relatório pedagógico. Naquele momento, sem saber, ela potencialmente violou a LGPD — e os dados do aluno foram para servidores nos Estados Unidos sem nenhuma garantia legal de proteção para estrangeiros.
O caso de Ana não é hipotético. É o que acontece todos os dias com milhões de brasileiros que usam ferramentas de IA generativa sem entender o que fazem com os dados digitados. E um estudo da FGV Direito Rio publicado em 2025 mostrou que o problema começa antes mesmo do usuário abrir o app: nenhuma das 7 principais plataformas de IA usadas no Brasil cumpre integralmente os critérios mínimos da LGPD.
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O ranking de conformidade: quem vai melhor e quem vai pior
O Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio analisou as políticas de privacidade de 7 ferramentas — ChatGPT, Gemini, Claude, Copilot, Grok, DeepSeek e Meta AI — com base em 14 critérios estabelecidos pela ANPD. O resultado, nas palavras do professor Luca Belli, coordenador do estudo: "O cenário das ferramentas de IA para privacidade varia do baixo ao assustador."
| Plataforma | Critérios LGPD atendidos | Pontuação | Principal falha |
|---|---|---|---|
| Claude | Melhor | Não indica países para onde dados são transferidos | |
| Gemini | Melhor | Não justifica transferência internacional por mecanismos legais locais | |
| Meta AI | Melhor | Não explicita claramente os direitos dos usuários brasileiros | |
| Copilot | Médio | Falhas em transferência internacional e direitos dos titulares | |
| ChatGPT | Atenção | Não revela responsável pelos dados nem destino das informações de brasileiros | |
| Grok | Ruim | Descumpre mais da metade dos requisitos básicos | |
| DeepSeek | Pior | Política de privacidade sem versão em português, dados para China |
Fonte: FGV Direito Rio / Centro de Tecnologia e Sociedade, 2025. 14 critérios baseados no Guia de Segurança da Informação da ANPD.
O que você não deve digitar em ferramentas de IA
O ranking importa — mas o comportamento do usuário é o fator de risco mais controlável. A LGPD define dois tipos de dados que merecem atenção especial.
Dados pessoais comuns — qualquer informação que identifique uma pessoa: nome completo, CPF, RG, endereço, telefone, e-mail, número de conta, placa de veículo. Dados pessoais sensíveis — categoria com proteção reforçada pela lei: origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação sindical, dados de saúde, vida sexual, dados genéticos ou biométricos.
5 boas práticas para usar IA sem violar a LGPD
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1
Nunca coloque dados de terceiros sem autorização
Antes de colar qualquer texto com informações de clientes, pacientes, alunos ou colegas, pergunte: essa pessoa autorizou o uso desses dados? Se a resposta for não — ou se você não sabe — anonimize antes. Substitua nomes por "Pessoa X", CPFs por sequências genéricas e informações de saúde por descrições vagas.
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2
Desative o histórico de conversas e o treinamento de dados
A maioria das plataformas permite desativar o uso das suas conversas para treinar os modelos. No ChatGPT: Configurações → Controles de dados → desativar "Melhorar o modelo para todos". No Gemini: Minha Atividade → desativar histórico do Gemini. Faça isso antes de qualquer conversa sensível.
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3
Prefira plataformas com melhor conformidade para tarefas críticas
Para tarefas que envolvam qualquer dado pessoal, priorize as ferramentas que lideram o ranking da FGV: Claude, Gemini ou Meta AI. Evite DeepSeek e Grok para qualquer uso profissional — ambas têm políticas de privacidade incompletas ou sem versão em português, o que já viola o princípio de transparência da LGPD.
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4
Leia (pelo menos) o resumo da política de privacidade
Antes de usar uma nova ferramenta de IA com dados do trabalho, busque por "[nome da ferramenta] privacy policy summary" ou use a própria IA para resumir a política em português. As três perguntas que importam: (1) os dados são usados para treinar o modelo? (2) os dados vão para outros países? (3) como exercer o direito de exclusão?
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5
Para dados profissionalmente sensíveis, use versões enterprise ou on-premise
Médicos, advogados, contadores e profissionais com obrigação de sigilo profissional não devem usar versões gratuitas de ferramentas de IA para tratar dados de clientes. Versões enterprise (como ChatGPT Enterprise ou Claude for Teams) têm políticas de não uso dos dados para treinamento — mas ainda exigem avaliação de conformidade com a LGPD antes do contrato.
🖊️ Na nossa avaliação
O estudo da FGV é um alerta que o mercado precisa ouvir — mas não deve ser lido como "pare de usar IA". A mensagem real é mais nuançada: use com consciência. A maioria das interações cotidianas com IA (pesquisar, redigir textos genéricos, aprender sobre um tema) não envolve risco à LGPD. O problema está nos atalhos: colar documentos de terceiros sem anonimizar, usar IAs de países sem acordos de proteção de dados para tarefas profissionais sensíveis, ou simplesmente nunca se perguntar o que a plataforma faz com o que você digita. A tecnologia avança rápido. A consciência do usuário precisa acompanhar.
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Perguntas frequentes
Segundo estudo da FGV Direito Rio (2025), o ChatGPT descumpre 5 dos 14 critérios mínimos exigidos pela LGPD — não revela a identidade do responsável pelos dados no Brasil nem informa para qual país os dados dos usuários brasileiros são transferidos. Isso não significa que você não possa usar a ferramenta, mas que deve evitar inserir dados pessoais de terceiros nos prompts e estar ciente de que suas interações podem ser usadas para treinar os modelos da OpenAI.
De acordo com o estudo da FGV (2025), Claude, Gemini e Meta AI lideram o ranking de conformidade com a LGPD, atendendo 11 dos 14 critérios analisados. Na lanterna estão DeepSeek (5/14) e Grok (6/14). Nenhuma plataforma, porém, cumpre a LGPD de forma integral. A escolha da ferramenta importa, mas o comportamento do usuário — o que ele digita nos prompts — é o fator de risco mais controlável.
Como pessoa física usando uma IA para fins estritamente pessoais, o risco direto de multa da ANPD é baixo — a lei foca em controladores e operadores de dados. O risco real é indireto: exposição de dados de terceiros sem consentimento, responsabilidade civil por vazamento ou, no caso de profissionais liberais, violação de sigilo profissional. Advogados, médicos e contadores têm obrigações éticas adicionais que tornam o uso descuidado de IA ainda mais arriscado.
A LGPD define dados sensíveis como: origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação sindical, dados de saúde ou vida sexual, dado genético ou biométrico. Além desses, dados que identificam diretamente uma pessoa — nome completo + CPF, endereço, número de conta bancária, prontuário médico — também devem ser evitados em ferramentas de IA públicas. A regra prática: se o dado pertence a outra pessoa, não cole no prompt sem anonimizar.