O clima no SXSW: a IA virou infraestrutura

Existe uma diferença entre um evento onde as pessoas falam sobre o futuro e um evento onde o futuro já chegou antes de todo mundo. O SXSW 2026 foi o segundo tipo. A inteligência artificial não estava mais em um painel especial no final do dia. Estava em todos os painéis, em todas as conversas, em todas as demos. Não como novidade — como pressuposto.

Isso muda tudo. Quando uma tecnologia deixa de ser tendência e vira infraestrutura, as perguntas mudam. Você para de perguntar "isso vai funcionar?" e começa a perguntar "o que vai acontecer quando funcionar?" E foi exatamente esse desconforto — essa tensão específica — que dominou o SXSW 2026 como nenhum outro tema.

O sinal mais claro do SXSW 2026
A IA saiu do estande e entrou na conversa de negócio

Nos anos anteriores, IA tinha espaço reservado — expo hall, demos isoladas, sessões técnicas. Em 2026, desapareceu desses espaços porque estava em todos os outros. Não há como separar "sessão de IA" de "sessão de negócios", "sessão de cultura" ou "sessão de política". Isso é o que parece quando uma tecnologia se torna infraestrutura.

O PROBLEMA

O problema silencioso: a velocidade superou a reflexão

Existe uma mudança de comportamento acontecendo no mercado que está tão normalizada que quase ninguém comenta mais. Durante anos, o ciclo era: avaliar → pilotar → implementar. Com cautela, comitê, análise de risco. Hoje o ciclo virou: testar → escalar → adaptar depois. Às vezes nem isso — a IA já está em produção antes de qualquer política de governança existir.

Os dados confirmam. Uma pesquisa da Abiacom com a Lideres.ai revelou que 47,4% dos profissionais brasileiros admitem usar ferramentas de IA de forma informal, sem aprovação da empresa, enquanto 59,1% das organizações ainda não têm diretrizes formais de governança. Não é que as pessoas estejam sendo irresponsáveis — é que a velocidade da adoção superou a capacidade de criar guardrails.

🚨
A mudança mais perigosa de 2026

Antes, a pergunta era "será que conseguimos fazer isso?". Hoje, a pergunta real é "estamos fazendo — mas deveríamos?" A diferença não é técnica. É ética. E é exatamente essa pergunta que a maioria das empresas está evitando fazer.

Isso gera riscos concretos: decisões automatizadas sem supervisão humana adequada, dados pessoais expostos em ferramentas externas sem consentimento explícito, viés algorítmico propagado em escala antes de ser detectado, e ausência de responsabilidade clara quando um sistema de IA causa dano real. Nenhum desses é teórico — todos estão acontecendo agora, em empresas de todos os tamanhos.

A CONVERSA

A reflexão que ficou comigo — e com o mercado

Produzindo um artigo sobre as tendências do SXSW 2026, fiz algo que faz parte do processo editorial do Algoritmo Diário: busquei perspectivas reais de profissionais que estão no debate, não em comunicados de imprensa. Perguntei ao Richard Wise, Brand Anthropologist e voz relevante sobre o futuro das marcas e da tecnologia, qual tendência ele achava que mais impactaria o mercado.

A resposta não veio na forma de dado ou previsão. Veio como uma história e uma pergunta — que, na minha opinião, resume com mais precisão o momento atual da IA do que qualquer relatório de consultoria que li nos últimos meses:

💼 Conversa real no LinkedIn · Richard Wise + Jhonatan Alves
RW
Richard Wise · Brand Anthropologist
Autor(a) · 1 d atrás
One moment that stayed with me: the story of the elephants.
It raises a question I can't shake —

What happens when we gain the power to intervene without the wisdom to restrain ourselves?

JA
Jhonatan Alves · Você
Diretor administrativo · Algoritmo Diário · 6h atrás
Estou criando um artigo sobre o SXSW 2026.
Quero incluir opiniões de profissionais —
👉 Qual tendência você acha que mais vai impactar o mercado?
Vou citar artigo (com créditos) 🙌

RW
Richard Wise · Brand Anthropologist
Autor(a) · 29 min atrás
Obrigado, Jhonatan. O que seus instintos dizem: será que este será um período em que assumimos o controle e faremos isso servir nosso melhor lado — ou estamos caminhando para um pensamento empresarial extrativo?

JA
Jhonatan Alves · Você
1h atrás · 4 Impressões
Richard Wise — Essa é uma pergunta poderosa — ela realmente ficou comigo também.

O que mais me chamou atenção foi a rapidez com que estamos passando de "será que podemos fazer isso?" para "já estamos fazendo" — sem entender totalmente as consequências.

Essa parece ser uma das principais tensões que moldam a IA agora, especialmente discutida no SXSW: capacidade versus contenção.

Com certeza vou incluir essa perspectiva (com crédito) no meu artigo 🤝

"What happens when we gain the power to intervene without the wisdom to restrain ourselves?"

O que acontece quando ganhamos o poder de intervir sem a sabedoria para nos conter?

— Richard Wise, Brand Anthropologist · Conversa no LinkedIn, março 2026

A pergunta vai muito além de tecnologia. Ela expõe uma tensão que os relatórios de mercado raramente nomeiam com essa clareza: estamos desenvolvendo capacidade técnica numa velocidade que supera nossa capacidade de reflexão ética e estratégica. E Wise vai além — ele lança o desafio central para qualquer empresa que usa IA em 2026: estamos usando essa tecnologia para servir nosso melhor lado, ou estamos caminhando para um modelo empresarial cada vez mais extrativo?

Esse tipo de questionamento mostra que o debate sobre IA em 2026 já não é técnico. É profundamente estratégico e humano.

OS DOIS CAMINHOS

Dois caminhos: evolução ou exploração?

O conceito de "pensamento extrativo" que Wise menciona tem raízes na economia, mas se aplica perfeitamente ao momento atual da IA. Modelos de negócio extrativos maximizam a captura de valor no curto prazo sem se preocupar com o que esgotam: recursos naturais, atenção humana, dados pessoais, confiança institucional. A IA amplifica esse modelo quando colocada a serviço dele — e o torna mais eficiente, mais rápido e mais invisível.

Mas existe um segundo caminho. E o SXSW 2026 mostrou exemplos dos dois:

🌱 IA para Evolução

  • Amplifica capacidades humanas sem substituí-las
  • Melhora qualidade de decisões com dados reais
  • Cria soluções que sustentam relações de longo prazo
  • Inclui supervisão humana em pontos críticos
  • Mede impacto social além do ROI imediato
  • Constrói transparência sobre como funciona

🏭 IA Extrativa

  • Explora dados em escala sem consentimento claro
  • Maximiza engajamento sobre bem-estar
  • Automatiza sem responsabilidade por erros
  • Cresce rápido, governa devagar (ou nunca)
  • Trata confiança como recurso a consumir
  • Esconde como e por quê funciona

O problema não é que as empresas escolhem conscientemente o segundo caminho. É que a pressão de velocidade, competição e crescimento leva a ele por omissão. Quando não há política de IA, quando não há revisão humana, quando o objetivo é escalar antes da concorrência — o pensamento extrativo vence por default.

A BATALHA

A batalha invisível: capacidade versus contenção

A tensão central do SXSW 2026 não é uma ferramenta, um modelo ou um app. É uma dinâmica: capacidade versus contenção. Nunca foi tão fácil — ou tão barato — construir e escalar sistemas de IA. O que não escalou na mesma velocidade é nossa capacidade de entender o que estamos construindo, para quem e com quais consequências.

A grande ironia de 2026

As ferramentas de IA ficaram mais poderosas, mais acessíveis e mais rápidas de implementar do que nunca. E é exatamente por isso que o risco de usá-las sem maturidade cresceu na mesma proporção. Poder técnico sem sabedoria estratégica não é progresso — é aceleração sem direção.

Existe uma história que Richard Wise mencionou — a dos elefantes — que funciona como uma metáfora para esse momento. Quando pesquisadores passaram a intervir ativamente nos ecossistemas de elefantes africanos para protegê-los de caçadores, descobriram algo perturbador: algumas intervenções, feitas com boa intenção e capacidade técnica real, criaram desequilíbrios comportamentais graves nas populações mais jovens. Poder de intervir havia chegado antes da sabedoria sobre como intervir.

A IA está em um momento análogo. Temos o poder de intervir — em mercados, em decisões de crédito, em contratações, em diagnósticos médicos, em o que as pessoas veem e acreditam. A sabedoria sobre como intervir bem, com quais limites e com qual responsabilidade, ainda está muito atrás.

Podcast · Algoritmo Diário

SXSW 2026: IA, Intenção e o Debate que o Mercado Evita

Análise em áudio — disponível no Spotify e nas principais plataformas.

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O QUE FAZER

O que as empresas podem fazer agora

Esse artigo não é um manifesto contra IA. É o oposto — é um argumento de que a IA usada bem, com intenção clara e responsabilidade genuína, é uma das forças mais poderosas disponíveis para criar valor real. O caminho não é frear. É escolher o caminho com deliberação.

💡
Três perguntas que toda empresa deveria fazer antes de escalar IA

1. Para quem isso serve? Se a resposta honesta for "principalmente para nós, à custa de alguém", é sinal de alerta. 2. O que acontece quando erra? Todo sistema de IA erra. Quem é responsável? Quem arca? 3. Isso amplifica o humano ou o substitui? A IA mais bem-sucedida a longo prazo é a que torna as pessoas melhores no que fazem — não a que as torna redundantes.

Na prática, isso significa criar política de governança antes de escalar, não depois. Significa medir impacto social além do ROI. Significa ter revisão humana em decisões de alto impacto. E significa — talvez o mais raro — ter coragem de não implementar algo só porque é tecnicamente possível.

Para quem quer entender como as empresas estão estruturando esse uso em 2026 — com agentes de IA que agem com autonomia, mas dentro de limites definidos — o nosso guia sobre IA nas empresas brasileiras mostra o estado atual da adoção e os erros mais comuns que levam projetos ao fracasso.

CONCLUSÃO

Quem decide como a IA será usada?

Saí do SXSW 2026 — e dessa conversa com Richard Wise — com uma certeza que não é confortável, mas é necessária: o futuro da inteligência artificial não será definido pelo que ela consegue fazer. Ela já consegue fazer coisas que nos surpreendem toda semana. Será definido por quem decide como ela será usada. Por líderes, por times de produto, por reguladores, por consumidores que escolhem o que apoiam com atenção e dinheiro.

A tecnologia em si é neutra. O que não é neutro é o modelo mental por trás dela. E 2026 está deixando cada vez mais claro que existem dois modelos em disputa: o que usa IA para ampliar o que há de melhor no ser humano, e o que usa IA para extrair, escalar e otimizar sem se perguntar o custo.

A questão que Wise deixou no ar — e que eu não consigo soltar — é a mais importante do momento: teremos maturidade suficiente para nos conter?

Não sei a resposta. Mas sei que a pergunta precisa ser feita. E precisa ser feita agora — não depois de escalar, não depois de implementar, não depois de causar o dano que ninguém previu porque ninguém parou para perguntar.

Perguntas Frequentes

O que foi discutido sobre IA no SXSW 2026?
No SXSW 2026, a IA deixou de ser tendência para se tornar infraestrutura. O debate central migrou de "o que podemos fazer com IA" para "deveríamos fazer?" — com foco em governança, velocidade de adoção, impacto social e a tensão entre capacidade técnica e contenção ética.
O que é pensamento empresarial extrativo em IA?
É o modelo mental que usa IA para maximizar extração de valor a curto prazo — escala de dados, monetização de atenção, crescimento acelerado — sem considerar impactos sociais, éticos ou de longo prazo. O oposto seria usar IA para amplificar capacidades humanas e criar valor sustentável.
Quais são os principais riscos da IA apontados no SXSW 2026?
Velocidade de adoção superior à capacidade de reflexão, falta de governança corporativa, decisões automatizadas sem supervisão humana, viés algorítmico propagado em escala, e ausência de responsabilidade clara quando a IA causa dano. Todos estão acontecendo agora, não são teóricos.
Como as empresas podem usar IA de forma responsável?
Criando política de governança antes de escalar; incluindo supervisão humana em decisões de alto impacto; medindo impacto social além do ROI; sendo transparente sobre como o sistema funciona; e tendo coragem de não implementar algo só porque é tecnicamente possível.
Qual é a principal tensão da IA em 2026?
Capacidade versus contenção. A velocidade de implementação de IA está superando nossa capacidade de entender e governar as consequências. O desafio de 2026 não é técnico — é de maturidade e responsabilidade coletiva sobre como essa tecnologia será usada.

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